IrreveЯsível

infinit(esimal)mente… cada fôlego.

Ser Não-Sendo

 

Um Ataque ao Princípio de Não-Contradição

 

Pois é impossível que quem quer que seja
considere que um mesmo [fato] é e não é…

Aristóteles; Metafísica; Livro IV; Capítulo 3 (1)

 

Existe, porém, um lugar e um tempo em que tal princípio pode ser posto em dúvida. O lugar é dentro de cada um de nós, nossa consciência. Acontece como um processo que se dá bem no âmago do próprio homem. O tempo não pode ser determinado precisamente. Não sabemos quando começa e/ou quando termina o processo e nem se começa e/ou termina. Mas, existem momentos em que nos damos conta de que estamos bem no meio dele. A este processo damos a denominação de reflexão.

Quando refletimos, reconhecemos e debruçamo-nos sobre nossa própria existência. Colocamos em questão as nossas posições e condições, tanto individuais quanto coletivas. Investigamos as relações estabelecidas entre nós e o que nos cerca e entre nós e nós mesmos. É como se existisse, além do universo que nos é exterior, um universo dentro de nós. Segundo Bruno de Solages, …no próprio seio deste universo interior, quando nos pomos a olhá-lo, produz-se como que um novo desdobramento de segunda potência. Assim quando me queimo há o fogo que me é exterior, e meu sofrimento, interior a mim; mas se me vejo sofrer, há no meu próprio íntimo, o eu objetivo que sofre e o eu reflexivo que me vê sofrer. (2) Neste texto, restringiremos o escopo de nossa discussão apenas ao refletir de nossa coletividade perante a existência, pois é isso que Aristóteles faz em sua Filosofia Primeira. Examina não apenas o mundo que está a nossa volta, mas o puro ato de ser.

Relacionamo-nos com o mundo. Interagimos com tudo o que conhecemos, com tudo o que existe, através de relações. Interagir significa agir mutuamente, dois ou mais objetos. Para melhor ilustrar o pensamento, imaginemos um relacionamento como dois círculos, que chamaremos de vértices ou pólos, com uma linha entre eles, uma aresta. Se nos colocarmos como um destes pontos, o outro corresponderá ao mundo que está diante de nós. A aresta irá configurar-se como a relação bidirecional desempenhada entre nós e o mundo, pois ao mesmo instante em que agimos sobre o meio que nos cerca, sofremos a sua ação em retorno, sua reação.

 

 

Temos assim, um modelo geométrico subjetivo do relacionamento eu-mundo, significando eu, o sujeito, e mundo, o objeto. Esta ilustração é capaz de representar todas as interações ou atos que realizamos. Basta, para isto, alterarmos o significado da relação que une os dois pólos. Se a denominarmos, por exemplo, de conhecer, estaremos representando a apreensão do conhecimento de um ponto de vista subjetivo.

Porém o empreendimento a que Aristóteles se propõe na Metafísica consiste na apreensão do conhecimento da realidade não apenas como mundo externo a si, mas da realidade como existência. Ao ser representado por nosso modelo, ele insere inevitavelmente um dos pólos do relacionamento no outro. O eu/sujeito fica contido dentro do próprio mundo/objeto que visa conhecer. Vejamos abaixo como isso ficaria esquematizado.

 

 

Temos, então, um auto-relacionamento. Existe apenas um tipo de relacionamento de um para com o mesmo em si: a identidade, A é A. Exigência para a existência, para o ser. Entretanto, o conhecimento, que, na Metafísica, visa apreender justamente esta relação de identidade, requer uma relação entre dois pólos diferentes. Afinal, todo conhecimento é conhecimento de algo. E, como seria possível conhecer a si mesmo sem que se constituísse em algo externo a si? Para que algo possa ser reconhecido como tal, é necessário que seja estabelecido um limite entre este algo e o que fará o reconhecimento. O auto-relacionamento do conhecer exige uma separação de um em dois. Mas esta separação não pode ser total, pois tem que haver uma continuidade que será responsável pela permanência da identidade entre os dois pólos resultantes. Ao realizar tal separação e continuidade, rompemos com o princípio da não contradição, é necessário ser e não ser ao mesmo tempo.

O sujeito do autoconhecimento necessita distanciar-se de si mesmo. Olhar para si como se fosse um outro, abrindo um vazio de si para consigo. Ao dizer, “eu sei que sou”, torno-me tanto sujeito quanto objeto do meu saber. O meu eu-sujeito e o meu eu-objeto confundem-se. Posiciono-me, simultaneamente, nos dois extremos opostos da relação. Sou e não sou, ao mesmo tempo e sob as mesmas circunstâncias, sujeito e objeto.

No caso de Aristóteles, na Metafísica, para poder enxergar e apreender a existência, seu objeto de conhecimento, ele precisa projetar-se para fora dela. Apenas colocando-nos fora da metafísica, podemos nos posicionar em relação a ela. Apesar de ser inevitavelmente uma relação de interioridade ou continência, só conseguimos enxergá-la quando nos projetamos externamente a ela e a nós mesmos. Um pólo em toda a sua efetividade, não toma conhecimento da própria polaridade e natureza, apenas vê o pólo oposto e não se dá conta de que este simples ato de ver consiste em um relacionamento, pois nem é capaz de perceber o ato em si. O relacionamento desempenhado entre o homem e a existência, em uma relação de conhecimento, poderia ser ilustrado da seguinte maneira.

 

 

Assim, Aristóteles projeta-se para fora da existência que pretende explicar. Apenas deste modo lhe é permitido conceber o próprio ato de ser. É não sendo o que realmente somos que podemos perceber que somos alguma coisa, assim como a própria coisa que somos. É constituindo-se em não ser que ao mesmo tempo é, que ele pôde elaborar a sua Filosofia Primeira. Foi a transgressão da lei primordial de sua própria obra que lhe permitiu constituí-la.

 

Notas:

(1) Tradução de Lucas Angioni;Textos Didáticos IFCH/UNICAMP; nº45, Setembro de 2001

(2) Bruno de Solages, Iniciação Metafísica, S. Paulo:1968

 

 

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